Há muitos anos (muitos mesmo, uns 25! kkk…), assisti a uma reportagem sobre uma técnica policial chamada manobra PIT e, por algum motivo que desconheço, nunca mais esqueci aquilo.
Acho curioso como a nossa memória funciona, porque ela esquece onde deixou a chave de casa ou o nome de alguém que acabou de ser apresentado, mas resolve guardar uma reportagem qualquer que passou na televisão na hora do meu almoço, como se soubesse que um dia ela ainda faria sentido.
Bem, a matéria explicava que nos EUA (será que aqui tb?), quando um carro em fuga representa risco para quem está ao redor, em determinado momento a viatura faz um movimento lateral muito calculado, que faz o outro veículo girar sobre o próprio eixo e perder completamente a trajetória.
Na época, achei aquilo interessante e segui a vida. Só muitos anos depois percebi que eu não guardei uma técnica policial; guardei uma metáfora…rs…
Porque, olhando de fora, a manobra parece um desastre. Sério! O motorista perde o controle, o carro roda, tudo sai da direção que vinha seguindo e, durante alguns segundos, parece que absolutamente nada deu certo. Só que esse é justamente o objetivo: impedir que ele continue indo exatamente para onde estava indo.
E eu fiquei pensando em quantas vezes a vida faz isso com a gente.
A gente cresce ouvindo que persistir é sempre uma virtude. Que basta insistir mais um pouco, aguentar mais um pouco, esperar mais um pouco. Quase nunca alguém nos ensina que existe uma diferença enorme entre desistir e simplesmente continuar acelerando numa direção que já não faz sentido.
Talvez por isso as grandes mudanças raramente cheguem com cara de oportunidade. Elas chegam vestidas de problema sério, como uma demissão, um diagnóstico, um término… Um “fracasso”, enfim.
Aquele plano que simplesmente desaparece e a gente só consegue pensar que perdeu o controle de tudo!!!
Vou te dar como exemplo a história do Jack Johnson.
Você conhece a história desse cantor?
Então, muita gente o conhece como cantor, mas, antes disso, ele era uma promessa do surfe profissional. Ainda muito jovem, sofreu um acidente grave durante uma competição, levou muitos pontos no rosto, perdeu dentes e precisou interromper justamente o caminho que imaginava seguir pelo resto da vida. Durante aquele período difícil, aproximou-se ainda mais da música, que já fazia parte da sua vida, mas não era o seu foco principal. Pois bem, o acidente que parecia destruir um futuro acabou abrindo espaço para outro que ele mesmo talvez nunca tivesse planejado.
Estava pensando também em quando Steve Jobs foi demitido da própria Apple e anos depois disse que aquela foi uma das melhores coisas que lhe aconteceram, porque o obrigou a começar de novo.
Ah! Tenho como exemplo, também, a história da estilista Vera Wang. Ela sonhava ser patinadora olímpica, mas não conseguiu se classificar para a equipe dos Estados Unidos.
Ela girou na manobra PIT dela e, aos 40 anos, abriu sua primeira loja de vestidos de noiva. Hoje é uma das estilistas mais conhecidas do mundo. Olhaí!
Na hora essas coisas pareciam uma batida para eles, mas ao olharem pelo retrovisor, fizeram uma curva que mudou completamente a direção da estrada deles.
Hihihi… Metáforas!
Acho que a gente gosta dessas histórias porque já conhece o final. E aí é fácil admirar uma mudança quando ela já deu certo, né?
Difícil é viver a nossa própria manobra PIT sem nenhuma garantia de que existe alguma coisa boa do outro lado…
Talvez seja por isso que passamos tanto tempo tentando manter trajetórias que já não nos levam para lugar nenhum. Vamos adiando conversas, insistindo em planos, suportando situações e chamando isso de maturidade, de perseverança. Só muito tempo depois percebemos que a vida estava tentando nos tirar dali.
Não sei por que aquela reportagem resolveu morar na minha memória durante tantos anos. Só sei que, hoje, olho para alguns acontecimento da minha vida e já não tenho tanta certeza de que foram acidentes. Talvez tenham sido apenas a única forma que a vida encontrou de me impedir de continuar indo para o lugar errado.
Enfim, a gente só vai entender a manobra quando o carro parar de girar.
Até lá, só nos resta seguir o baile.
Tina | Seguindo o baile.

